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Traduction d'Ethy'.

O carro do senhor João Caetano Ribeiro da Silva Morais dos Santos nunca arrancou à primeira. Nem nunca arrancou à segunda. Em todo o caso, em catorze anos que a vejo estacionada no pequeno pátio de pavimento de calcário branco por baixo do nosso prédio deteriorado, nunca ouvi o som do seu motor.
 

O senhor João Caetano Ribeiro da Silva Morais dos Santos que daqui adiante chamarei de João, porque conheço-o bem, é oficial de diligências no Ministério das Finanças, ou seja, abre e fecha a porta das salas de reunião depois de ter verificado que o número de cadeiras efectivas estava adequado. É prova que está à par das finanças mas também dos Negócios Estrangeiros e Interiores, porque sua Excelência, o nosso Presidente do Conselho, o Grande Homem, acumulava estas funções como deve ser para dirigir um país que se bem pobre a nível da população, é rico em política. Acumulava, porque de momento, já não se sente muito bem. 

25Avril.jpgO senhor João certamente não gosta tanto assim dos corredores ministeriais mas bem tem de fazer viver a sua família, a Alda, sua esposa, Amália e Anália, as suas gémeas adolescentes e como, a bem dizer, a sua função não lhe causa um cansaço extremo, uma vez chegado à casa, sempre pode consagrar-se ao seu passa tempo favorito: encerar o seu automóvel. 

Não é um automóvel luxuoso e mal consegue alcançar a praia de Carcavelos que é um lugar modesto, levando a sua esposa calada e as suas filhas que certamente devem ser muito giras em fato de banho - por vezes, vislumbro-as furtivamente vestidas de calcinhas, tão belas quanto a sua mãe, porque a janela do seu quarto está à esquerda da minha, do lado do pátio - para além do pára-sol, do cesto com petiscos, das garrafas e do braseiro para as sardinhas. É que já estamos em Abril, e Abril em Portugal... 

Não é um automóvel luxuoso mas de todo o prédio, é o único a ter um. Eu por exemplo, que ganho a minha vida escrevendo alguns artigos vigiados para os jornais autorizados, não teria os meios para ter um, e no entanto, se bem que tenho mais ou menos a mesma idade que o senhor João, não tenho família para sustentar. 

Não vou muitas vezes ao café, mas lá tenho bons amigos que me recebem calorosamente e discutimos veementemente porque sou do Porto e eles do Benfica. Nunca falamos noutra coisa, e sobretudo, não em voz baixa. 

O senhor João lá vai invariavelmente todas as noites depois de acabar de esfregar os tampões das rodas. Mas não diz nada que seja. Bebe silenciosa e solitariamente uma única cerveja, depois volta à casa às vinte e três horas em ponto. Quando não vou ao café, é que a Alda foi ter comigo ao meu quarto sob pretexto de uma compra, enquanto as gémeas atrevidas fingem fazer os trabalhos de casa, fumando na janela cigarros de filtro e ouvindo canções americanas no seu gira-discos. 

Hoje de manhã, ouvi na Rádio Renascença, “Grândola, vila morena”. A Rádio Renascença é uma emissora católica. Não é que eu seja praticante e nem rádio tenho mas as paredes do prédio são tão fininhas que ouço distintamente o programa que ouve a senhora Mendonça, minha vizinha, uma viúva meiga e velha, um pouco beata mas generosa e antes discretamente tolerante para com os meus próprios excessos. Devo dizer que viveu a sua mocidade no Rio. Então, um pouco surda, subiu o som quando um locutor imprevisto, a voz abafada por um crepitar eléctrico, convidou firmemente todos a permanecerem calmos e a ficar em casa. Todos entenderam de imediato e alguns mais depressa que outros, porque o senhor João desceu a correr as escadas ruidosas e tentou fazer arrancar o seu carro com grandes maniveladas. De nada serviu gritar-lhe pela janela: “Senhor João, dizem para não sair de casa...”, atravessou o pórtico correndo, saltando que nem um coelho das colinas do Alentejo. 

Bateram-me à porta. Era a Alda, pálida como uma lua, aninhando as suas duas filhas desvairadas. Olhou-me sem olhar. 

Ao cair da noite, fui misturar-me à alegria do povo no Rossio, ouvi que a PIDE tinha atirado e que houve seis mortos e que finalmente se tinham entregue ao Movimento das Forças Armadas e que agora começava a caça aos delatores. Os capitães de Abril da Revolução dos Cravos não tinham usado uma bala que fosse. Uma revolução branda. Uma branda revolução. 

Voltei à casa de manhã, um pouco embriagado de um presente novo a viver agora. Quatro homens excitados e armados batiam furiosamente à porta do senhor João Caetano Ribeiro da Silva Morais dos Santos. 

Alda e as suas filhas estão em segurança no meu quarto onde dormem sossegadamente. Debrucei-me na janela. Pensei que talvez devesse passar uma pele de camurça nos cromos do carro do senhor João. Olhei para a Alda e as moças. Não. Certamente que voltará à casa. 

Nem que seja pelo seu automóvel. 

par Minuitdixhuit
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