É a minha primeira vez, a minha primeira noite de arraial, talvez a última, não sei, mas sei que vou sabê-lo.
"Algodão doce para os meninos e as meninas!" Frente ao vendedor de algodão doce com o sotaque áspero do Porto, na barraca de tiro, alinhados, os ursos de pelúcia primeiro, os balões multicolores, depois eu, uma das doze, vestida de panos amarelos como os meus cabelos, os braços pálidos, o sorriso fixo, o rosto lívido, as faces e a boca vermelhas como uma boneca de verdade, algumas mais bonitas em tule multicolore salpicado de lantejoulas, bonecas para escolher, apontar, sacar. Tremo um pouco na ponta do fio ao ver um russo alto e um baixote moreno alentejano que me olham insistentemente.
- Escolheste a tua boneca, Zeca?
- A de cabeça amarela. Escolheste a tua?
- A mesma.
- És mesmo um brincalhão, Mané. Sempre a meteres-te comigo. Felizmente somos amigos, caso contrário tinha-te tratado da saúde por causa do que fizeste com a Maria da Graça. E pensar que te fazias a ela no intervalo do Benfica - Sporting enquanto que o imbecil que está a falar contigo ia buscar três cervejas na mercearia em baixo porque o teu frigorífico estava vazio.
- Deixa-te disso, só queria assegurar-me de que iria fazer-te feliz e pelos meus olhos que a terra há-de comer, ainda é mais bonita desde que está grávida do teu último.
- Ai as bonecas, basta apontar como deve ser e zás, sacada está a boneca, troça o ruivo.
Porque queriam-me eles tanto? De todas sou a mais feia. Nem posso fechar os meus olhos de pálpebras estarrecidas. E não sinto vontade nenhuma de lhes suscitar pena, então invento-me um coração alegre e livre já que é a minha primeira festa e que não há coração para levar-me a galope. Para onde aliás? Não sei. Estou cá para ser sacada.
- E se te matassem? murmura a boneca pendurada á minha direita.
Se me matam, não tem importância alguma. Outra ficará no meu lugar na próxima noite. Já a entrevi quando me tiraram da minha caixa. Uma rapariga de porcelana com os cabelos de seda azul, não uma magra com joelhos grossos e seios pequenininhos como os meus.
O ruivo aponta para mim, um olho franzido, o outro pregado no meu pescoço.
- De toda a maneira só posso ter essa, as outras são bem bonitas mas demasiado caras.
- Está bem, saca-a primeiro. Se falhares é a minha vez.
- Vou apontar só um pouco por cima da linha entre o pescoço e o ombro para cortar o fio que a prenda à sua caixinha.
Espero. Tenho os cotovelos apertados no meu corpo, os antebraços estendidos, os olhos meio fechados, a boca um pouco entreaberta. O tiro não vem.
- Vou antes apontar para à da direita. Essa é demasiado amarela.
O estalido seco e breve me ensurdece. Ao meu lado, nenhum roçar de pano. Quem está a cair sou eu. Não senti vir o tiro.
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